terça-feira, 25 de agosto de 2009

As sombras.




Sob o luar entrecortado pelas grossas copas das árvores, ela sentia a sola de seus pés repousando sobre as folhas secas. Cada folha craquelava alto, um som surdo de folha seca perdido na escuridão da mata. Cada folha era um grito no escuro.

Acompanhada apenas pelo canto de uma ou outra ave notívaga, ela sentia o frio gelado envolverem seus braços nus, mas com um objetivo em mente, caminhava, olhando para o solo, deslizando suas mãos sobre os troncos das árvores que a encontravam pelo caminho.

E em sua longa trilha que levava todas as noites para aquele que era o palco dos seus sonhos, ela ouvia seus pés pisando em folhas, encostando em gravetos, acariciando flores. Seus pés já eram abituados à rotina de folhas, gravetos e flores mesmo não tendo grande experiência, mesmo não sendo sábia, mesmo não sabendo acreditar.

E perdida, pequena no meio do mato, ela já pensava que iria saborear as suas lágrimas , derrotada, na volta para casa. Foi quando ela a viu: vistosa, brilhante, etérea, eterna, chorosa e risonha sobre as copas das árvores. Sob o manto prateado de sua musa, ela, ainda tão garota e tão serena, sentiu grossas gotas de devoção deslizarem sobre seu rosto. Sentindo o doce sal em seus lábios, ela caminhou para mais perto do lago, onde a sua musa jogava seu manto luzidio sobre a infalível água sedosa. A garota fechou os olhos tamanho era seu brilho, e ela lampejava fortemente, ofuscando todas as esperanças, rasgando todos os poemas, sangrando qualquer coração porque ela era, enfim, o destino de todo desejo.

E quando menos podia perceber, a menina já havia seus pés envoltos pela água gelada. Ela ainda mantinha seus olhos fitados sobre a diva argêntea que reinava no céu. Ela ainda chorava. E antes que pudesse cair ao chão com o peso de suas lágrimas, ela deitou-se na relva com os pés ainda molhados e observou seus grandes sonhos, todos no céu, brilhando em cima de seu peito aberto. Sentindo a terra encharcada perder-se por entre seus dedos, ela sentia a solidez da lama, do barro que havia sido a origem de TUDO, derreter-se como verdade , esfriando em suas mãos. Ela tateava o solo como se este fosse veludo, e ela sabia, que naquele monte de concretos em que os louros moravam, naquela mundo confuso que seus olhos não haviam alcançado mas que seus ouvidos conheciam, que seda ou organza algum eram comparáveis à grandeza daquele toque sobre aquele chão.

Engoliu cada gota de seu próprio sal como se todas elas fossem uma pequena panacéia para sua vida, abençoadas por sua Salvação de Prata que sorria ao longe. Cada gota descia morna dentro de seu corpo, deslizando leve como pequenas almas, aquecendo o espírito, escorrendo a dor.

E quando já estava prestes a derramar longos soluços ao ouvir os lobos ao longe, percebeu que a doce luz de prata agora confundia-se com o clarão vermelho e intenso das tochas do bando. Eles haviam vindo buscá-la , desesperados com sua ausência , e ela , temerosa por ter de voltar à crudez cotidiana, agarrou inutilmente uma pequena folha de relva, como se esta pudesse amarrá-la às suas esperanças. Desejou ardentemente possuir uma canoa, e poder remá-la, remá-la até estar no meio do lago e banhar-se com o brilho total e intenso de sua musa crepuscular, sentir a eternidade de sua luz, a iluminação que ela trazia aos seus mais loucos sonhos. Mas, imóvel diante de tantas tochas ardentes, ela contentava-se em observar a doce salvadora em meio às estrelas, às doces lágrimas de sua heroína que eram chamadas estrelas, e que vez ou outra, quando caíam, os louros chamavam de "cometa". Ela deslizava seus pés sobre a fina borda das águas que ainda estava próxima de suas pernas, sentindo seus tornozelos molharem, esperando que as mãos do bando levassem-na para longe.

Foi quando ela sentiu um beijo terno repousar sobre sua testa, e uma voz virando-se para eles: "Vão. Eu voltarei com ela". Ele deitou-se ao lado dela, e ela, cujo coração quase serpentinava em direção à musa, de tão rápido que pulsava, engoliu a vontade de derramar o soluço que estava por vir. Ele abrandou , com sua mão quente, a gelidez de sua mão de menina , e ambos sentiam o toque da sábia terra sobre suas peles. E ele, imerso pelo encanto incontestável daquela Branca Amazona e de suas lágrimas-estrelas, apertou mais fortemente a mão da menina, ambos submersos pelo doce feitiço da paladina prateada.

Então os dois, atados pelo toque de seus dedos, embarcaram juntos numa jornada de percepção da própria pequenez, da maravilha de ser diminuto perante o infinito, do privilégio de ter a desimportância perante o Céu e a Terra. Sentiam o minúsculo pulsar de suas almas perante a vindoura aurora, e antes que a musa então partisse com seu aceno esvoaçante, ele atirou-se à tentação de dizer:

- Meu desejo era vir vê-la todas as noites.

E a menina, então, ao ouvir palavras tão gêmeas das suas, liberou todo e qualquer soluço, seu choro era o urro, o grito da noite, o desespero profundo da noite, cortando o cenário negro e inebriante da escuridão, e ele sentiu com suas mãos o grito dela, e num desespero e maravilha resolutos, ambos preferiram acalmar o pranto e apreciar os poucos segundos que restavam da epifania da divina Musa...

Um comentário:

Anônimo disse...

Oh não! tudo sumiu!
Paula